A
loucura é dividida em três estágios: a idiotice consciente, a lucidez plena e,
finalmente, a loucura total.
A idiotice consciente tem início na pré-adolescência e vai até aos 22 anos. Há
casos em que esta fase só termina aos 35 anos, acompanhada de bastante terapia
de grupo. É nesta fase que esses indivíduos se apresentam extremamente
vulneráveis a qualquer tipo de ideologia e são disputados a tapas pelas
agências de publicidade.
É nesta fase também que vivem a sua maior crise existencial, quando descobrem
que nunca existiu papai-noel e que foram enganados por muitos anos. Passam
então a não acreditar em mais ninguém que acreditara antes, usando
primeiramente os familiares como alvo de sua indignação e, em seguida outras
instituições, sendo a escola a mais alvejada delas.
Começam a acreditar em tudo que nunca ouviram falar antes e em pessoas que
morreram por alguma causa, sem saberem exatamente quais seriam estas causas.
Mudam de comportamento e começam a vestir roupas que antes achavam ridículas.
Duendes, Che Guevara, Raul Seixas são alguns dos seus ídolos.
Passam a acreditar no Socialismo de uma hora para outra, mas no Socialismo de
Mesada. Talvez uma compensação pela perda da imagem do papai-noel, mas não há
nenhum estudo sério sobre isso, assim como a preferência pela cor vermelha nos
dois casos.
Já a lucidez plena, que vai dos 25 aos 50 anos, os indivíduos estão na fase de
consolidação do seu caráter, ou da falta dele. De posse de bastante
conhecimento e “vasta” experiência profissional, social e sexual, passam a
montar suas estratégias para os próximos 50 anos, mesmo não tendo certeza do
que irá acontecer ao término desse prazo.
Os indivíduos que se sentiram muito enganados por seus ídolos do passado, papai-noel,
familiares, bancos, agências de publicidade, adotam, nesta fase da vida, a
tática do “agora sou eu”, muito utilizada na infância e também conhecida como
“meinha”.
Começam enganando seus cônjuges, depois seus patrões, seus gerentes de banco e
por aí vai. Alguns desses, contraem uma doença antiga, mas só recentemente
diagnosticada, conhecida como TUCO (Transtorno Um-sete-um Compulsivo Obsessivo)
mas, curiosamente, muitos dos indivíduos que a contraem conseguem uma brilhante
carreira em algumas áreas de atuação profissional ou no cenário político
nacional.
Já os indivíduos desta fase que foram pouco enganados, ou que não apresentaram
muitas seqüelas em relação a esse trauma, adotam uma estratégia diferente da
dos demais. Começam a refletir sobre tudo que viveram nos últimos vinte e cinco
anos e chegam a conclusão que tudo aquilo que viveram, desde a pior desilusão
até os melhores momentos de suas vidas, como a primeira transa, fora uma coisa
muito positiva, tornando-se obcecados em partilhar suas experiências com outras
pessoas.
É nessa fase que se casam, têm filhos e constroem suas carreiras, pautando
sempre suas ações em princípios e experiências vividos anteriormente. Alguns
desses indivíduos são extremamente inquietos e criativos, a ponto de transformarem
suas experiências vividas na mais genuína arte.
Geralmente são pessoas bem sucedidas profissionalmente e bem vistas pela
sociedade. Alternam utopia e pragmatismo na administração de suas vidas,
tornando-se pessoas equilibradas e solidárias.
Chegamos finalmente ao último estágio, onde a loucura se dividirá em dois tipos
distintos: O maluco beleza e o doido varrido. Está fase inicia-se aos 50 anos,
somente para aqueles que conseguiram desviar-se das balas perdidas, e se
entenderá até os últimos dias de suas existências.
Por tratar-se do último estágio da loucura, essa fase pode ser comparada à
pré-estréia do juízo final.
Os indivíduos considerados malucos beleza são todos aqueles que já não levam a
vida tão a sério como antes e filtram todas as informações que obtêm, evitando
ao máximo as armadilhas contidas nessas informações. Conseguem diagnosticar o
momento presente com extrema precisão e com apenas uma taça de vinho, prevêem o
futuro com a mesma precisão que suas sogras prevêem a meteorologia.
Já os doidos varrido são aqueles indivíduos que falam o tempo todo, geralmente
com quem não está presente, mas que eles acreditam estar. Adoram escrever
cartas aos jornais e acham que naquela semana vão ganhar na loteria, mesmo
cientes que naquela semana não jogaram. Compram medicamentos na farmácia, mas é
só em casa, com muita paciência, é que escolherão o sintoma da doença.
Acreditam que o INSS sempre conspirou contra eles e que o grande problema do
Brasil são as “Perdas Internacionais”.
Alguns desses chamados doidos varridos, mesmo com fortes indícios desse tipo de
loucura, conseguem mandatos para administrar diversas cidades pelo Brasil afora
a até cadeiras nas maiores casas legislativas do país. Tem muito louco por aí
que ainda vota nesses caras, acreditam? ...Mas isso já é outra história.
Abel de Jesus Requião (poeta e compositor)